domingo, 22 de março de 2015

Pela manhã

- Talvez a gente não tenha nada a ver.

Ela começou assim o café da manhã. Depois de uma noite incrível de sexo, depois de eu ter sido arrastado pra um dos seus mil casamentos. 

- ovo mexido, quer?

Ela continuou a falar naturalmente, quase como se eu não tivesse escutado a sua primeira sentença. 
Sentença. Palavra curiosa pro momento. Sentença é frase, ne? Mas é veredicto. 

- eu fiz meio mole, meio duro. Como você gosta!

Ah, ela conhece meus ovos! Perdão com o trocadilho. Mas os ovos que ela me faz são os melhores! Não serve pra nada além disso na cozinha, mas os ovos... 
Eu vou comer antes de perguntar qualquer coisa.

- Mas então. Não sei se você ouviu...

Ouvi. Mas passa o sal antes?

- Nós não temos nada a ver.

Antes era "talvez". Agora ela parece falar com alguma certeza.

- Aquele dia no bar, ou no outro lá em Petrópolis... Sabe. Acho que tá evidente... Ontem também...

Peraí! Ontem?!?! Chegamos bêbados. Eu de terno grafite como ela gosta, ela de vestido vermelho como eu gosto. Chegamos no apê, comi ela de pé, de lado e deitada de bruços. Como assim ontem tá nessa lista?

- Tá... O sexo foi incrível. O sexo com você é sempre incrível. E é por isso mesmo que

Parei de escutar. Meu pau ficou duro na hora e eu só pensava em parar os ovos dela pra ela sentir os meu ovos outra vez. Mas ela cortou meu tesão.

- Sério. Foi mal, sabe. Mas é que, é que eu te curto demais. E acho que não vai dar mais. 

No caso não dar mais você diz que você não vai mesmo dar mais? Ai, merda.

- Não posso. Não nasci pra isso. Defeito congênito, de fábrica, sei lá. Difícil isso, sabe.

Não. Não sei. Já posso falar agora?

- Eu penso em você e me vem um monte de coisa maravilhosa. E é exatamente esse o problema! Não vai rolar, Fabio. Pra mim acabou.

Ela levantou e colocou o salto antes de fechar o vestido. Ajudei com o zíper, agarrei ela por trás e enfiei meu nariz na sua nuca. Não tinha mais o que fazer. Torci pra que isso fosse apenas uma fuga. Não disse nada. 
Ela escapou das minhas mãos. Bateu a porta. 

Chorei. 

O problema não era ela, era eu.

Quando lá do alto
Não te avisto
Tá distante
Não dá pra mais
Você ficou lá trás
Antes de eu decolar.
Não sei voltar
Esqueci o caminho
E não quero lembrar
Tá na hora de sair mesmo
Mas você quer ficar 
Não te reconheço
Nem você a mim
Cuida bem desse fim
Porque não tenho tempo
De pensar nos momentos.
Eu parti mesmo
Não foi pesadelo
Meu sonho tá acontecendo
E estamos distante outra vez.
Não foi insensatez, te juro
Não esqueci seus dons
Mas não há mais espaço
Pra andar no mesmo passo
Eu e você não somos mais
E isso jaz
Você sabe.
Ou poderia jazz,
Você também sabe.
Parti, obrigada.
Foi bom ser sua "ada".",
Nada.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Amor de carnaval


Tentei tirar a purpurina dos meus olhos da sua barba. Na verdade só fingi. Gostei de deixar uma marca da minha passagem em você. Como um sinal de propriedade, de direitos exclusivos. Mesmo que eu nem saiba seu nome. Você sabia o meu. 
E não precisávamos de mais nada.
A primeira vez assim. E eu me sentia livre como há muito não sentia. Certa, segura e feliz. 
Você disse umas coisas bonitas, eu fiz piada sem graça de ter sentido você tão perto de mim. Não queria virar as costas. Mas e o medo de dizer que eu poderia me apaixonar só com esse pouco? 
Você tem as palavras certas. Exatas. Gelei. Com "i", não posso esquecer. 
Me afastei. Não dava pra esperar. Você é gentil demais, alguém de quem posso me orgulhar. Tenho medo de gostar. 
Podia ser meu jardineiro fiel. 
Virou uma boa lembrança. Um momento pra carregar pra vida, como você bem disse.
Já to sentindo saudades. Minhas purpurinas não estão mais em mim.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Um dia comum


Aquela vez no mercado. Discutimos sobre qual creme de leite levar. Você querendo o mais saboroso. Eu na bandeira do quanto mais light melhor. Levamos um de cada. Você acabou comendo dos dois sem nem perceber.
Na sessão de molhos, debruçado horas como se fosse uma decisão importantíssima. Enquanto eu te olhava, apaixonada, nem aí pra quanto tempo você iria demorar.
Admirava seus músculos, suas costas fortes. Você é o único homem que conheço que fica bem de regata. Fica muito bem, pra ser justa.
Lógico que você sabia que eu tava te secando. E se alongou daquele jeito só pra rir da minha cara. Rimos. A sua gargalhada vem aos poucos. Quase nunca, rara. Mas quando vem, me sinto dona do universo. E você ri mais ainda porque sabe como me faz feliz quando mostra os dentes brancos contrastando com a sua pele morena. 
Escolho qualquer um dos molhos da sua mão e você me puxa pra roubar um beijo em público. Tsc, tsc: aqui não pode... E você faz que não escuta. Cedo.

A conversa com a moça do caixa, você me seca como se nunca tivesse me visto e eu tivesse nua dançando hula. Olho no olho, conferindo em frações de segundo tudo que fez você me escolher.
É. Eu puxo papo com todo mundo enquanto você observa calado e cheio de vontade de ir embora e de me ouvir falar só pra você. 
Eu e você cheios de ciúmes dos molhos, do mercado, do tempo. Porque ele passa mais momentos do que conseguimos acompanhar. 

A moça pede licença: vão pagar como?

Currículo

Sou uma cantora boa, mas ruim.
Toco piano direito, já esqueci tudo.
Corro rápido, nem tanto.
Jogo futebol, éeeeee...
Joguei basquete, lutei capoeira, fiz judô, fiz balé clássico, dança israelense, ginástica rítmica, natação, inglês, francês, grego, curso de desenho, dança africana, curso de culinária, de dublagem e de locução. Hablo español, sei algo sobre jazz, dietas, viagens, poesias. Tentei saber sobre tudo. 
Acabei publicitária.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Desejo



Eu queria escrever algo que dissesse o que foi o Quênia.
Algo que pudesse trazer as pessoas pra dentro das minhas memórias, que elas pudessem sentir o cheiro podre das ruas, tocar as mãos sujas de crianças sorridentes, ouvir o "how are you?" matinal das vozes finas.
Queria que elas sentissem o peso de pisar na lama das ruas, que elas vissem crianças almoçando uma manga. Queria que elas tocassem no cansaço de viver ali.
Queria que elas caminhassem pela favela, que fossem chamadas de musungo, que tivessem vergonha de não poder mudar o mundo.
Que dessem pro outro a própria comida, que não se importassem com as alergias, que brincassem com as crianças sem frescura.
Que dançassem torcendo pra hora durar, que essas pessoas não tivessem medo de se envolver. Queria que elas ouvissem de quem mora ali, que a vida dele é assim mesmo, e mesmo assim ele sorri! Queria que as pessoas aprendessem.
E que soubessem que há muito mais lá fora do que se pode pensar.
Queria fazer com que essas pessoas esquecessem peque julgam conforto porque conforto é ser feliz com pouco. Queria poder sentir o cheiro podre de novo e achar ele gostoso porque ele é o cheiro de quem se importa com coisas maiores.
Queria ser maior do que sou. Melhor do que sou.
Queria poder levar o Quênia pra todos os lugares do mundo.