terça-feira, 24 de março de 2009

Até quanto

Eu sabia: dessa vez seria diferente. Dessa vez eu não enfiaria os pés pelas mãos. Eu cederia minhas mãos a tudo. Eu tinha certeza. Eu conseguiria. Não seria igual a nada na vida. Poderia até não ser como em outras vezes, mas era esse porém que me dava ainda mais vontade de contiuar. Eu iria fazer diferente.
Em outros planos, eu faria de tudo. Não meçaria o limite. Não diria menos do que a vontade. Não perderia a lua das mãos.
Não. Dessa vez não.

E foi então o que fiz. Não fui além quando achei que não deveria. Não segurei até sangrar meus dedos. Não corri mais do que meu fôlego aguentaria. Me afastei em horas mais até do que queria. Li nos folhetins e imitei o que os oráculos me diziam. Escutei amigos, amantes e a família.
Escrevi menos poesia. Ignorei um pouco a nostalgia.

Hoje, bem lá no fundo, de nada adiantou tanta teoria. Descobri, em meio a tanta melancolia, o que nesse mundo ninguém gostaria: às vezes é como um encanto e sua magia.
E não existe fórmula para o até quanto.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Mais uma tarde na UFRJ

Que orgulho! Estudar na UFRJ! A antiga Universidade do Brasil!
Mesmo quando resolvi voltar à estaca zero, após me formar em Publicidade na PUC, pensei que poderia aprender muitas coisas novas. Cursar Letras numa das maiores faculdades do país e ainda por cima de graça (!) parecia um sonho! O fato é que, cursar, propriamente dito, não tem sido o melhor verbo para definir o que eu faço por aqui.

Após duas semanas de aula, vim para o Fundão - aliás, nome excelente para especificar o que se passa por aqui, que explico depois. Este período já começou e eu ainda me encontro na aparente impossível tarefa de descobrir qual é a minha sala de aula de minha única matéria (porque o SIGA - sistema online para matrículas etc - só me deixou inscrever-me em uma). Então, cá estou à toa no Fundão. O meu prédio nem é lá tãão grande, mas é que a organização é uma palavra que não existe por aqui. Provável que tenha sido retirada do vocabulário. Será que foi o acordo ortográfico?

Meus professores diriam que isso não tem nada a ver. Mas eu não sei onde eles estão pra ter essa certeza.

A única certeza que eu tenho é que neste terreno longíquo e semi-baldio, de clima único e não-encontrado em nenhum outro lugar e de ventilação fétida da super Baía de Guanabara, realmente aprendi algo útil.

Em 2 semanas eu aprendi a suportar a condição física daqui, de corpos suados no verão, outono e primavera, aprendi a pagar o valor de R$3,00 por uma latinha semi-quente de coca-cola light e a ter tolerância, MUITA tolerância.

Em 3 semanas anda me encontro no trabalho de detetive tentando investigar a minha sala e rastrear meu professor, que eu nunca vi na vida. Já fiz até um retrato falado.
Enquanto cada departamento (para ser bem burocrático tem que ter vááários! E aqui tem um bando!) dá a sua versão para o paradeiro da minha aula, aguardo sentada ao lado da Pretinha - vira-lata-mascote - escrevendo uns rabiscos como este.

Pois, enquanto o Sr Pai de Todos Google não me ajuda, me resta sentar e assitir os dias virarem noites nesta terra de ninguém.

terça-feira, 17 de março de 2009

Roupa branca

Eu espero esse dia
Como explicação para a dor
Em um silêncio de roupa branca.
Enquanto visto minhas artimanhas
Na ansiedade de ainda ver
Em outro hemisfério o sol se pôr.

Galhos

Onde vai parar essa fuga?
Tudo escapa como vento das mãos.
Será que tentei agarrar o erro,
Ou foi apenas mais uma luta
Que terminou em vão?

Já nem poetiso como antes
Quando o medo era menor que a razão.
Perdi toda a consciência
E fingi ser dura labuta
Um sonho fadado à ilusão.

De tantos em muitos galhos,
Procurei encontrar uma posição
Onde desse para observar tudo
E, das alturas, não correr o risco
De, de repente, cair de cara no chão.

Enquanto isso, brinco com rimas.

terça-feira, 10 de março de 2009

Tempo

Quando olhou para o relógio, se deu conta. Ainda precisaria esperar muito. Nem contou os minutos para que sua agonia não ficasse mais expressiva. A sua hora iria chegar, ele sabia. Mas a vontade era tanta que tinha até medo do que poderia acontecer. Colocou os fones nos ouvidos e buscou uma estação qualquer. Apenas umas músicas azuis, uns falatórios de quem não tem o que dizer e uma reportagem sobre um acidente de trânsito.

Nevava pela primeira vez em 63 anos. Ele, com 29, não tinha tido ainda o desprazer de um inverno como aquele. No frio, sua espera tornava-se mais insuportável e, mesmo de ceroulas e luvas, não conseguia conservar o seu calor em seu corpo. Até porque, o pouco que tinha estava concentrado por seus sentimentos.

Mais cedo, naquele dia, pensou sobre sua vida. Faria 30 anos em breve e não queria transportar para a nova casa decimal os receios de sua juventude.

Tateou os blosos à procura e encontrou um único charuto. Puxou e acendeu como quem pede calma à paciência. Tudo estava por vir.

O entardecer previa que a noite adormeceria mais cedo. Ele, ainda sem coragem para consultar o relógio outra vez, sentou-se na calçada seca mais próxima. Subiu três degraus e achou-se na entrada do centro cultural. Dali ele poderia ver o momento chegar.

A cidade parecia parada. Aquele clima não lhe pertencia. Era como se um intruso, um vírus, um niño tivesse se instalado sem pedir licença e sentado ao seu lado.

Um tempo depois ouviu um barulhos. Na sua calçada já havia um homem e um grupo de amigos animados. O homem levantou-se e partiu. Deviaele partir também e desistir da espera? Aquele frio o expulsava. Mas como poderia abandona sua maior expectativa?

E então, no meio de seu devaneio, ouviu uma vozlhe chamar. Apagou o charuto, levantou-se e partiu. Sem mais esperar.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Obsessão

Era sua última flha do caderno. Se não conseguisse exprimir tudo o que sentia naquelas pautas, nunca mais teria outra oportnidade. O grafite quebrava a toda hora, tamanha era a força de seus movimentos. Aquilo nunca lhe acontecia.

Escritor desde os 22 anos, ele agora com 47 parecia ter esquecido como era escrever. Tentou lembrar-se de clichês, de Shakespeare ou de qualquer filme bobo para garotas. Não. Suas idéias não vinham. Ele realmente estava diferente.
Quando se apaixonou, dessa vez por uma ninfeta de 18 anos, não tinha imaginado que seria tão difícil mantê-la sob seus braços.

Olhou para seus músculos. Talvez fossem o motivo dela. Já não eramais garoto e, apesar de ter mantido a vaidade por todos esses anos, sabia: não era páreo para as novas concorrências. Ela estava traindo-o. Estava convicto, certo, de suas especulações.

Tomado por um ciúmes incontrolável, ele fez um papel ridículo logo no primeiro churrasco da faculdade de engenharia, à qual ela havia recém ingressado. Aquele monte de jovens bêbados tentava se aproximar de sua morena como cachorro atrás de frango. No som, tocava um desses "proibidões" do funk e todos rebolavam até o chão como se fosse uma dança de acasalamento. Puxou-a com raiva de dentro da roda e ouvi-se um coro confuso de indignação. Morena, mais bêbada do que ele jamais havia visto, nem se dava conta do assédio.

- O que você tá fazendo, Morena?

- Me larga! VocÊ tá me machucando!

Uma discussão calorosa tomou conta da festa. Barraco digno de novela das oito com a Suzana Vieira. O vermelho tomava os rostos dos dois enquanto a obsessão extravasava da razão. Ele só parou de gritar com ela quando ouviu um qualquer:

- Ô, tio! Não precisa gritar assim. Tá todo mundo se comportando aqui!

Mal ouviu a interrupção e já saiu voando pra cima do garoto. Nem percebeu que morena tentava intervir.

Pow. O nariz de morena sangrava. Suor e sangue numa pintura poética de um desastre que ele nem tivera tempo para prever.
O mais forte da trupe ameaçou revidar, mas foi segurado por outros. O "tio" saiu dali ainda ouvindo o choro de morena. Sem ter aonde ir, no entanto, sentou-se do outro lado da rua, na calçada, à espera de poder ao menos pronunciar um pedido de desculpas. Envergonhado, nem o havia feito.

Foram os 5 minutos mais longos de sua vida. Morena desceu acompanhada por um casal e não lhe dirigiu nada além de um olhar de fúria e reprovação. Ela também se sentia humilhada.

Dias depois, quando tentava se redimir e após gastar 97 folhas do "caderno pautado - uma matéria - 98 folhas brancas" em vão, entendeu. Com a mão ainda inchada pelo incidente, sabia que não haveura mais volta. Ela também deveria estar inchada. Rasgou a última folha em branco e enfiou a mão num balde de gelo.