terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Viagem

Ele me perguntou quando.
Eu apenas respondi que não tínhamos tempo.

- Cada minuto é precioso, meu bem.

Me pareceu um pouco ansioso, mas nada que umas boas doses não curassem.
Chegando ao aeroporto, eu já nem sabia mais para onde estava indo. Apenas queria decolar e sentir que o frio na barriga não tinha vindo do meu coração.

Comprei uns chicletes na loja do saguão. De entupido, bastava o intestino.

- Última chamada para o vôo 1937 com destino a...

Era esse o vôo que eu ia pegar. Nem bem a voz metálica terminou anunciação e eu começava a sentir o arrependimento consumir meu cérebro aos poucos. Às vezes, muitas, desconfio da genialidade da razão.
Acendi um incenso na fila de embarque e enquanto ainda esperava o fogo cessar e o cheiro me acalmar, uma mão tocou meu ombro.

- Oi - uma voz masculino pronunciou.

Gelei. Será que é ele?

Virei furtivamente. Na verdade, tremia tanto que, à vingança da minha razão, minhas pernas se mexeram sem a minha ordem.

- A Sra vai ter que apagar seu incenso. Aqui é proibido.

Até pensei em argumentar que a proibição é ao cigarro e não à minha inocente fumaça - que, aliás, era bem melhor do que o acre odor de um dos senhores à minha frente.
Mas eu não estava em codição para argumentar.
Poderia acabar desabando em um choro profundo.
OK. Enfiei o incenso num gole da coca sem gás que eu segurava há horas só para manter minhas mãos ocupadas. Tsss.

Inspirei o máximo da fumaça que ainda subia pela garrafa.

Minha poltrona era a da saída de emergência. Uma alegria que eu teria aquele dia seria o prazer de viajar com as pernas esticadas.
Antes de desligar meu celular e outras bugigangas tecnológicas, ouvi o barulhinho:

- Plim!

A mensagem era dele.

"Quantos minutos ainda temos juntos?"

Foi só o tempo de pensar na resposta e lá veio a comissária de bordo:

- A Sra vai ter que desligar seu celular. Aqui é proibido.

Ela estava certa. Ele ficaria sem a minha resposta.
O avião decolava.

Horas de vôo após, acordei com a luz do sol. Provavelmente já estávamos algumas horas para trás.
Levantei e fui ao banheiro. Um pouco de água no rosto para recuperar a consciência.
Ao sair dali, no entanto, olhando ao redor, constatei que estava sozinha no boeing.
Quantas vodkas eu havia tomado aquele dia?
Hum... Mas não bebo vodka...

Perguntei à aeromoça:

- Que horas são?

- Em qual fuso horário?

- Não entendi... Eu embarquei em um vôo doméstico...

Ela apenas riu e saiu pelo avião. Acho que não sabe o que é uma piada de verdade...
Segui-a com o olhar e me aliviei. Eu ainda não havia enlouquecido. Outras passageiros, poucos, espalhavam-se pelo avião.

- Srs passageiros. Estamos pousando no aeroporto de...

- Repete!! Capitão!! Não entendi! - minha voz não saía.

Em solo. Desconhecido. Já posso afrouxar meu cinto?

Esteira, esteira, esteira, esteira...
Mala no carrinho. Fui guiando até a saída.

Ele estava lá.
Meu deus!
Ele estava lá!!
Euforica, gritei seu nome.
Repetidas vezes!
Mas ele não me ouviu. Onde tinha ido parar a minha voz?
Gritei o mais alto que pude. Tão alto que gases saíram por onde não deviam àquela hora.
Ele nem titubeou. Percebi que embarcava no vôo contrário.
E foi então que olhei para o relógio central.
Eu havia voltado cinco meses no tempo. Olhei ao redor e ele já não estava mais lá.
Havia sido tudo uma ilusão. Mas eu... Não acordara a tempo.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Importa

Por um milhão de motivos.
Por razões nada racionais.
Por paixão sem sentido.
Eu repito:
Que a única virtude que resta
É pensar que nessa fresta
Há um tanto quanto quase,
Do pouco um muito de tudo.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Preciso me encontrar

Merecida homenagem à Candeia, pela supremacia que tal letra consegue atingir. Esteja feliz, esteja triste, existe sempre uma razão pra transformar essa criação em uma composição certeira da vida.
Que os momentos sejam traduzidos com a melhor das interpretações.

"Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver...

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver...

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar..."

Verdade

Busco musos.
Corro atrás de amores escusos
De fato, não amo ninguém
Apenas idolatro o que me convém.
Sem me preocupar com nada,
Procuro no desdém
A razão pra continuar
Amando sempre em vão.


(original: 06/11/2007)

Essa é de 08/01/2008

Eu que sempre poetizei em saliva
Os versos que nunca escrevi
Transcrevo a tristeza que me ativa
Pelos poemas tolos que esqueci.


Não sei onde estava a caneta
O papel branco ficou estático
Mas eu bem lembro da faceta
De um coração nada apático.


Hoje meus versos estão digitais
Não que eu os ache assim mais belos
Mas talvez desse modo eu os sinta vitais
E continue a construir seus elos.


Numa folha qualquer a esmo
Volto a versar versátil
Um pensamento mesmo.


Na linha da inconseqüência
Ignoro o poder da dor
Esvaiu-se a consciência.

Solução

Preso,
Amarrado,
Castigado,
Sentenciado.
Devo ter endoidado.
Preciso fugir de mim.


(original: 31/01/2008)

Efeito

Defeito é
Termos.
Feitos um
Para o outro é
Inegável.
Não há feito.
Maior que o defeito,
É achar que nesse leito
Não é possível sonhar.
Enquanto me deleito,
Um feito espera
O defeito passar.
Com todo respeito,
Mesmo o mais perfeito,
Ninguém sabe amar.