terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Futebol, trabalho e sexo

- Pronto! Falei!

- Você teve o que???? Repete o que você me disse!

- Por quê? Só porque eu tive esse sonho e... Agora você se importa comigo?

- Já vai começar a chantagem emocional?

- Meu benzinho, você já está alterado e está dizendo que eu é que to fazendo algum tipo de drama??

- Você e a sua ironia poderiam ir juntas pra...

- Pra eternidade do meu sonho! Aliás, ia ser ótimo! Porque o Deco é uma beleza e...

- Não quero saber os detalhes do seu sexo selvagem imaginário com o meu melhor amigo!

- Mas querido! É só um sonho! Você está dando muito importância para uma besteira dessas...

Ela faz uma breve pausa e continua.

- Ainda mais você...

- Não entendi... O que você está insinuando?

- Ué! Na hora de imaginar sua mulherzinha linda na cama, você demonstra afeto, ciúmes, raiva, virilidade!! Uuuui! Mas, engraçado... Essa semana eu estava de cama, doente, e quando eu te liguei você nem perguntou "Está melhor?"...

- Eu estava viajando a trabalho. Você sabe disso. Vamos ter que voltar a essa discussão?

- Não. Vamos até mudar de assunto. Você sabe os resultados dos jogos de domingo?

- Botafogo e Flamengo empataram... O Fluminense goleu. O Vasco que se dane e o resto, é o resto né. Heheh

- É...o resto é o resto, seu filho da mãe!!!

Ela bate nele com muita raiva, apesar da força quase inexistente.

- Que é que foi? Que é isso?

- Tá vendo! Tá vendo! Você não liga a mínima! Os jogos, a tabela do brasileirão, você sabe de cor!

- Taça Guanabara...

- Anh??

- Não é brasileirão é a taça guanab...

- Você só pode estar brincando comigo! E ainda reclama quando sonho com os outros! Lógico! Com um namorado de 30 anos que ao invés de aproveitar a... Aproveitar a disposição que ainda tem, o vigor, não! Prefere ligar pros amigos, tomar cerveja e assistir a jogo de futebol! Eu aposto que com o Deco o esporte seria outro...

- Você não se atreva, hein!

- Só estou expondo meus sentimentos. Coisa, aliás, que você deveria fazer tamb´me. Lembra o que aquela terapeuta falou?

- Terapeuta! Você acha mesmo que eu ouvi alguma coisa que aquela louca disse?

- Você tinha que ser engenheiro, né?!

- Você tá maluca? O que isso tem a ver??

- Hum...maluca...peraí...

Ela pega um caderninho na cômoda, abre uma página já marcada e anota mais um palitinho ao lado de "maluca".

- O que você tá fazendo?

- Estou anotando suas atitudes. Até o momento já foram 47, lógico que só nesse mês, as vezes que você me chamou de maluca.

- Renata, você tá...você tá...sabe o que é que você está?!

- Meu lindo, quando a gente já nem sabe mais do que chamar o outro, é batata: é porque estamos assumindo que erramos! Relaxa. Tudo vai ficar bem agora. Vou cuidar de você. Olha...

- Bem? Nada vai ficar bem! Você transou com o Deco!

- Ih, meu deus! Depois eu que sou louca! Foi só um sonho!

- Renata... Renata...

- Amorzinho, eu preciso ir agora.

- Peraí! Agora que você começou a dr, termina!

- Ahhhi! Tudo bem! Faz o seguinte. Eu vou passar uns dias fora. Você liga pra terapeuta, agenda um horário com ela e me liga quando estiver bem, ta?! Cuidar de maluco não é coisa pra mim...

- Renata!

- Tchau, lindinho! Ah! Tem comida na geladeira!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Verde

Desconfiei quando, em tom de piada, ele enganou:

- Não tenho podres...

Expira

A frase saiu da boca dele naturalmente:

- Não sou homem de ameaças...




Sendo assim, já não sei o que vivi nos últimos meses...

Após

E em certas escolhas é que se percebe o poder da dor da covardia.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Viagem

Ele me perguntou quando.
Eu apenas respondi que não tínhamos tempo.

- Cada minuto é precioso, meu bem.

Me pareceu um pouco ansioso, mas nada que umas boas doses não curassem.
Chegando ao aeroporto, eu já nem sabia mais para onde estava indo. Apenas queria decolar e sentir que o frio na barriga não tinha vindo do meu coração.

Comprei uns chicletes na loja do saguão. De entupido, bastava o intestino.

- Última chamada para o vôo 1937 com destino a...

Era esse o vôo que eu ia pegar. Nem bem a voz metálica terminou anunciação e eu começava a sentir o arrependimento consumir meu cérebro aos poucos. Às vezes, muitas, desconfio da genialidade da razão.
Acendi um incenso na fila de embarque e enquanto ainda esperava o fogo cessar e o cheiro me acalmar, uma mão tocou meu ombro.

- Oi - uma voz masculino pronunciou.

Gelei. Será que é ele?

Virei furtivamente. Na verdade, tremia tanto que, à vingança da minha razão, minhas pernas se mexeram sem a minha ordem.

- A Sra vai ter que apagar seu incenso. Aqui é proibido.

Até pensei em argumentar que a proibição é ao cigarro e não à minha inocente fumaça - que, aliás, era bem melhor do que o acre odor de um dos senhores à minha frente.
Mas eu não estava em codição para argumentar.
Poderia acabar desabando em um choro profundo.
OK. Enfiei o incenso num gole da coca sem gás que eu segurava há horas só para manter minhas mãos ocupadas. Tsss.

Inspirei o máximo da fumaça que ainda subia pela garrafa.

Minha poltrona era a da saída de emergência. Uma alegria que eu teria aquele dia seria o prazer de viajar com as pernas esticadas.
Antes de desligar meu celular e outras bugigangas tecnológicas, ouvi o barulhinho:

- Plim!

A mensagem era dele.

"Quantos minutos ainda temos juntos?"

Foi só o tempo de pensar na resposta e lá veio a comissária de bordo:

- A Sra vai ter que desligar seu celular. Aqui é proibido.

Ela estava certa. Ele ficaria sem a minha resposta.
O avião decolava.

Horas de vôo após, acordei com a luz do sol. Provavelmente já estávamos algumas horas para trás.
Levantei e fui ao banheiro. Um pouco de água no rosto para recuperar a consciência.
Ao sair dali, no entanto, olhando ao redor, constatei que estava sozinha no boeing.
Quantas vodkas eu havia tomado aquele dia?
Hum... Mas não bebo vodka...

Perguntei à aeromoça:

- Que horas são?

- Em qual fuso horário?

- Não entendi... Eu embarquei em um vôo doméstico...

Ela apenas riu e saiu pelo avião. Acho que não sabe o que é uma piada de verdade...
Segui-a com o olhar e me aliviei. Eu ainda não havia enlouquecido. Outras passageiros, poucos, espalhavam-se pelo avião.

- Srs passageiros. Estamos pousando no aeroporto de...

- Repete!! Capitão!! Não entendi! - minha voz não saía.

Em solo. Desconhecido. Já posso afrouxar meu cinto?

Esteira, esteira, esteira, esteira...
Mala no carrinho. Fui guiando até a saída.

Ele estava lá.
Meu deus!
Ele estava lá!!
Euforica, gritei seu nome.
Repetidas vezes!
Mas ele não me ouviu. Onde tinha ido parar a minha voz?
Gritei o mais alto que pude. Tão alto que gases saíram por onde não deviam àquela hora.
Ele nem titubeou. Percebi que embarcava no vôo contrário.
E foi então que olhei para o relógio central.
Eu havia voltado cinco meses no tempo. Olhei ao redor e ele já não estava mais lá.
Havia sido tudo uma ilusão. Mas eu... Não acordara a tempo.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Importa

Por um milhão de motivos.
Por razões nada racionais.
Por paixão sem sentido.
Eu repito:
Que a única virtude que resta
É pensar que nessa fresta
Há um tanto quanto quase,
Do pouco um muito de tudo.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Preciso me encontrar

Merecida homenagem à Candeia, pela supremacia que tal letra consegue atingir. Esteja feliz, esteja triste, existe sempre uma razão pra transformar essa criação em uma composição certeira da vida.
Que os momentos sejam traduzidos com a melhor das interpretações.

"Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver...

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver...

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar..."