sexta-feira, 15 de maio de 2009

Dia seguinte

Depois de um dia tenso, sem descanso. Trabalho das 6 às 22h, tudo que eu precisava era inebriar-me. Sem dúvida nem receio, cederia aos desejos da vida mundana. Não aguentava mais. Precisava entorpecer-me.

Ele passou o dia gritando comigo, como se o estresse tivesse sido assim, por minha culpa. Eu!

Que havia me exercitado, suado, passado o dia todo sob um sol de 40°. Indo do Galeão à Barra, passando por todos os bairros da Zona Sul. Então, eeeeu, que aguento o tranco todo dia, dei-me o direito de me irritar. Foi quando parei no meio da Perimetral e gritei com vontade:

- Completa de álcool! Agora, só álcooool!

Foram tantos litros que hoje não prestei. E só no meio da ressacas é que me dei conta de que não sou flex.

obs: esse texto foi um exercício de conto de um objeto inanimado.

Felicidade

- Você é feliz?
Que pergunta! Lógico que sou!
- É lógico, por quê?
- Meu amor, ao seu lado quem não seria?
- Isso tá me cheirando a demagogia...
- Porque eu não seria feliz?
- Cada um tem seus motivos...
- Você me perguntou baseada em quais?
- Nenhum. Perguntei de bobeira...
- Tem certeza? Ou tá tentando me confundir?
- Não... Só achei engraçado você afirmar com tanta veemência que é feliz.
- Você é feliz?
- Sou. Às vezes.
- Por que às vezes?
- De vez em quando fico triste...
- Triste?
- É! Tem vezes que não me sinto feliz... Por isso.
- Por exemplo...
- Como quando você briga comigo.
- Só isso?
- Não... Quando vou trabalhar. Você sabe que eu não gosto muito desse emprego e...
- Que mais?
- Ué! Sei lá! Só sei que de vez em quando não sou feliz. E você?
- Eu sou. Já disse.
- Mesmo quando não está bem?
- Sim.
- Não acredito...
- Por que?
- Porque eu te vi triste outro dia...
- Outro dia eu te vi comendo batata frita. Mas não é por isso que você é gorda.
- Você tá me chamando de gorda???
- Nããão...
- Seu infeliz! Precisava me atacar assim?
- Não...
- Tá vendo! Taí o motivo pelo qual não sou 100% feliz!
- Você me entendeu mal...
- Você é que entende mal as coisas. Totalmente dependente dos seus pais, num sonho ilusório de que um dia sua vida vai mudar! E ainda por cima me chama de gorda pra suprir sua própria infelicidade!
- Não foi isso que eu quis dizer. Eu só to
- Entediado! É isso!! Olha, eu não tenho nada a ver com esses seus problemas.
- Meu amor... Não fala assim... A gente pode magoar o outro...
- Já to magoada! E irritada! Entediada! Por que você faz isso? Você é muito imaturo, sabia?! Fica jogando em mim as suas frustrações. Só porque sou frágil, sensível, insegura... E feliz às vezes.
- Mas foi você quem começou essa discussão sobre felicidade!
- Discussão...
- Roberta, você tem que rever essa sua análise. Não ta te fazendo bem...Assim você vai acabar
- O que?
- Vai acabar ficando infeliz!
- Lógico! Com um noivo que acha q sou gorda e me culpa por tudo!
- Meu amor... O que fizeram com você? Você era feliz!
- É! Já fui muito feliz. Felicíssima! De dar inveja aos outros.
- Por isso me apaixonei por você.
- João, você é feliz ainda? Comigo?
- Foi a primeira coisa que te disse quando acordamos hoje...
- Então tá.
- O que?
- A partir de agora seremos felizes.
- Eu já sou. Só falta voc...
- Joããão!!!
- Ok. Seremos felizes. Eu e você. Pra sempre. Como nos contos. Pode ser?
- Pode!
- Então tá.
- Tá.

(...)

- E o que a gente faz agora, que somos felizes?
- Não sei. O que você quer fazer?

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Essa é sem nome e velha (23 de maio de 2007)

Será que seria muito egoísta pedir pra você nunca se apaixonar?
Tenho minhas dúvidas sobre o que é amar...
Se eu soubesse apenas gostar...
Seria tudo diferente.
A mim, nada seria eloquente
A ponto de achar que vou perder você.

Não penso em mais nada
A chuva cai mas o chão está seco.
Parece que o céu confundiu tudo.
O sol ciumento não permitiu a geada.

Você diria: "besteira,
Estarei com você de qualquer maneira"
Mas será do jeito que eu quero?
Acho que nada será como espero...

Só vejo cinzas no mesmo lugar
Onde deveria estar meu coração
Queimou inteiro, acabou meu ar
Respirar é uma ilusão.

E por mais que eu finja
Que eu minta pra mim
Ninguém acredita
E pra você que é mais eu do que sei ser,
Como eu posso parecer calma
Se minha alma eu não sei cadê?!

Causas

É na razão que recrio
As mesmas paixões.
Não há ser sem emoção
Mesmo quando há caminho.

Nesse meu arrepio
As mesmas causas.


obs: essa poesia tava perdida em algum lugar. Resolvi postá-la. É velha! De 10 de junho de 2008.

Felicidade

Não amo ninguém. Ganhei na loteria. Escrevo por prazer. Faço o que der na telha. Nado todos os dias. Vou à praia quando faz sol. Tomo umas no fim de semana. Uso minhas próprias roupas. Compro algumas coisas às vezes. Leio livros e poesias. Escolho os meus amigos. Ajudo muita gente. Rio quase sempre. Sou independente. E tem uns que ainda vêm me perguntar o que é felicidade.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Circo

Há horas em que o artista apenas sai de cena. Termina seu show, agradece a audiência e espera o fechar das cortinas. Embora nem sempre receba as críticas do público, tem através dos risos e choros ouvidos durante o espetáculo a avaliação do público.
Um dia, no entanto, o artista não ouve nada. Não escuta fungadas, nem sussurros e nem risadas. O público etá ali, apático. E ainda presente apenas para fazer valer o ingresso comprado com antecedência. Se soubesse esse público do desastre, talvez não teria pagado pra ver.
Alguns raros ainda assistiriam ao artista. Quem sabe, na ânsia de entender o que pode ser, no julgamento de outro, o melhor número, a melhor carta na manga. Mesmo discordando de quem se apresenta, esse público está disposto a pagar pra ver se todos os minutos valeram a pena. Quanto valem os seus próprios minutos.
Uns saem satisfeitos. Pelo menos o show foi melhor do que o esperado. Outros acham que durou demais. Põem um ponto final tão rápido quanto o inicial. E, por último, há os que não sabem julgar o que assistiram.
Direito de todos, claro. Ao artista, cabe a coragem de se expor sob um holofote. O medo do artista, no entanto, é perceber ao final de tanto esforço, entrega e preparação, ainda que ele seja o único capaz de fazer tal, que nem sempre é possível emocionar o público. Para bem, ou para mal, com ou sem mágoas, é essa a hora de desmontar a lona.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Abril

Não sei porque mas sempre gostei deste mês. Talvez pela sonoridade da palavra que quando criança era motivo de piadas. Ou porque o mês começa sem se comprometer com a verdade`
Posso enumerar algumas grandes datas nesse período, assim como posso dizer que vários dias não significam nada. Mas, abriu, E é sempre um mês de começo.

Talvez minhas raízes judaicas possam explicar esse sentido. Mesmo que eu as taxe apenas de coincidências. O certo é que desde a minha vinda para esse Egito, Abril é somente ele.

Amanhã é comemorado o Pessach, a páscoa judaica. E hoje me vi um pouco mais inspirada para começar os meus êxodos.
Pela primeira vez em alguns anos, sentei-me em um banco diferente do ônibus. Sobre aquele banco havia uma goteira. Deliciosa metáfora. Uma profecia moderna para noção de prosperidade que uma pequena mudana pode fazer - apesar de que, para ser honesta, eu já estava me irritando com o spingos na cabeça.

Não houveram outras mudanças nessas quase 18horas da minha véspera de libertação, mas de alguma maneira sinto que o primeiro passo foi dado. Sei que meus antepassados caminharam 40 anos. No entanto, é crucial ressaltar que parte da libertação deles consistia em mover-se fisicamente.
A minha prisão, porém, não requer deslocamento. Para que eu saia do meu egito, sei que preciso aprender a diferenciar a memória do saudosismo.
Para quem crê na importância da primeira, sabe que o que é memória é história. É passado. Um acontecimento anterior acabado. Para quem imortaliza a segunda, resta a esperança de emancipar a lembrança e destituí-la do presente posto de supremacia.

Eu ainda busco a minha libertação sem revela-la em uma fuga. Aliás, quando é dit que meus antepassados "fugiram do Egito", doi-me uma dor cheia de redundância. Reduzir esse tip de decisão e de trajetória como fuga, é subestimar a capacidade hmana da superção.
Um e outros medos serão sempre calços para uma cadeira que não quer mover. No entanto, ficar bamba pode revelar novos ângulos de um mesmo lugar ou pode servir para engatar uma nova marcha.

Eu, provavelmente, ainda trilho no insucesso da libertação. O fracasso, porém, só vou saber se tive daqui aos meus 40 anos no deserto.