Ela era simplesmente ela. Mesmo quando tentava ser outra, era impossível não perceber os traços de suas principais características sob os disfarces. Podia fazer o esforço que fosse. Podia travar a ansiedade de se libertar. Podia criar até uma nova identidade. Nada era capaz de escondê-la.
Durante anos foi venerada. Aclamada por sua irreverência. Todos queriam ser como ela. Quer dizer, nem todos. Mas os que não queriam, desdenhavam seu modo de ser pois sabiam que, apesar de seus defeitos, só ela era capaz de atingir essa plenitude em segurança.
Em qualquer lugar que fosse, era sempre lembrada. Tinha histórias e estórias para contar. Não se importava que o mundo soubesse de suas facetas. Aliás, na verdade ela gostava dessa exposição. Fazia bem ao seu ego. Através dela podia revelar sua exímia habilidade em narrar a vida - coisa que acabou se apaixonando em fazer.
E, como em qualquer caso de paixão, também nesta ela se entregou. Deixou-se levar aos poucos e a cada dia passou a "aumentar". "Aumentar" não como mentir, mas sim como uma progressão geométrica de suas vivências. Ela insistia em produzir cada vez mais. Criar era a sua subsistência.
E, assim, ia criando mirabolantes fascículos de vidas que até hoje não se sabe a vercadidade.
No entanto, também não podia deixar de exagerar-se - visto que a comédia escrachada e o trágico profundo e (por que, não?) profano são gêneros de uma receptividade acima da média.
Essa paixão pela fala, pela escrita, pelo consumo de mais e mais histórias era o que a fazia viver. Era o que a fazia persistir numa mesma caricatura de si. Além disso, o reconhecimento de suas artimanhas verbais lhe concedia ainda mais prazer em fazer "material de pesquisa e trabalho", como gostava de chamar suas extrapolações.
E foi por essa paixão, esse ritmo, que o ciclo incumbido a qualquer e toda paixão desandou: depois do ápice, a paixão desaguaria, amornaria ou se descontrolaria de vez.
Mas Ela já não seria mais capaz de dominar os acontecimentos. O controle fugia de suas mãos como lebre do lobo. Para que não o perdesse por completo, ela decidiu que aquele era momento em que deveria decidir pelo seu rumo. Optar, agora, não era um privilégio. Cabia às suas atitudes a definição de sua mais nova máscara, que poderia lhe devolver o prazer de sua paixão e a reciprocidade que antes havia.
Enfim, e talvez até um tanto quanto contrariada, ela chegou a conclusão. A partir de hoje, Ela teria um novo nome: Loucura.
terça-feira, 22 de julho de 2008
sábado, 19 de julho de 2008
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Viadutos
Nas vigas dessa rua
Cinzas e sujas
Um rio se esgota e sua.
Não sei se rio,
Ou se esgoto
Percorre ruas em minhas vigas.
Cinzas e sujas
Um rio se esgota e sua.
Não sei se rio,
Ou se esgoto
Percorre ruas em minhas vigas.
Livre
E o que é a democracia
Se não posso ter escolha?
Ilusão deve ser...
Tenho na mente
Algo que não optei.
Eu que nunca fui passiva
Tenho rouca voz
No entanto,
Voto?
Nem sei o que dizer...
Estou completamente à mercê.
quarta-feira, 16 de julho de 2008
terça-feira, 15 de julho de 2008
Há dois anos, uma carta de amor
Eu estava lá. Você também.
Eu não te conhecia, mas sabia que era você.
Caminhei segura até o bar e te vi do outro lado do balcão, pedindo um drink.
Fingi não te ver. Foi difícil. Mas não podia transparescer que havia perdido o chão.
Você me olhou e me percebeu.
A insegurança tomou conta de mim. E senti quando meu corpo tremeu, ensandecido de ansiedade.
O garçom já me perguntava pela milésima vez o que eu queria beber.
Sorri, sem graça, e pedi o mesmo que vocÊ.
Sugava o canudo com força, desespero. Certa de que o momento estava por vir.
Mas respirei fundo e relaxei. Já recobrava a calmaria do meu ser quando vireir de costas e vi...você.
O turbilhão voltou forte e minha única certeza era a de que eu precisava sair dali, fugir.
E, quando eu já estava em meu caminho, você sem compreender, me puxou pela mão e me pegou. Você me segurava a um palmo de distância.
Eu olhei pra você e sorri, tremi, estremeci, me perdi, mas sorri.
E só então eu senti o fim de toda aquela dor.
Eu não te conhecia, mas sabia que era você.
Caminhei segura até o bar e te vi do outro lado do balcão, pedindo um drink.
Fingi não te ver. Foi difícil. Mas não podia transparescer que havia perdido o chão.
Você me olhou e me percebeu.
A insegurança tomou conta de mim. E senti quando meu corpo tremeu, ensandecido de ansiedade.
O garçom já me perguntava pela milésima vez o que eu queria beber.
Sorri, sem graça, e pedi o mesmo que vocÊ.
Sugava o canudo com força, desespero. Certa de que o momento estava por vir.
Mas respirei fundo e relaxei. Já recobrava a calmaria do meu ser quando vireir de costas e vi...você.
O turbilhão voltou forte e minha única certeza era a de que eu precisava sair dali, fugir.
E, quando eu já estava em meu caminho, você sem compreender, me puxou pela mão e me pegou. Você me segurava a um palmo de distância.
Eu olhei pra você e sorri, tremi, estremeci, me perdi, mas sorri.
E só então eu senti o fim de toda aquela dor.
Fevereiro
Não sei qual a graça
Mas sei que alguma ele tem.
Toda vez em que vem, me abraça.
Sem desdém.
Sem pensar em praça
Ou em outro alguém.
Ele apenas....
Vem.
E quando vejo
Percebo:
Sem esse me quer bem,
Talvez eu nunca pudesse me ser.
Mas sei que alguma ele tem.
Toda vez em que vem, me abraça.
Sem desdém.
Sem pensar em praça
Ou em outro alguém.
Ele apenas....
Vem.
E quando vejo
Percebo:
Sem esse me quer bem,
Talvez eu nunca pudesse me ser.
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